Como escritora já virou hábito para mim transformar cada sentimento bom ou ruim em verso, cada situação cômica ou aterrorizante em um poema longo e cheio de rimas ou curto e sem rima alguma. Já escrevi poemas sobre dor, amor, desilusão, felicidade, medo, indiferença, insegurança, mas hoje me encontro incapacitada para escrever sobre um sentimento rude e deselegante que me assola o peito... Como escrever sobre o ressentimento?
O ressentimento, aprendi desde pequena na Igreja, é um sentimento diabólico que deve ser afastado do coração, "não devemos guardar rancores de quem nos feriu, mas sim perdoar e esquecer". Tenho certeza que a irmã que me disse isso estava cheia de boas intenções e ideais cristãos, mas não acho que a parte do "esquecer" seja aplicável na vida real. Nós nunca esquecemos. Ou, pelo menos, eu não.
Lembro de cada pessoa que me feriu e, dependendo do grau de importância que ela detém na minha vida hoje, posso garantir que apesar do "eu te perdoo" o ressentimento ainda está aqui, escondido. E a cada deslize da pessoa perdoada, ele vem à tona, só que mais forte. Este inquilino cruel é capaz de trazer dores passadas para o presente e transformar seu familiar/amigo/namorado na pior pessoa do mundo.
Talvez eu esteja cometendo um pecado literário ao escrever assim, com tantos erros de português e à flor da pele... Todo bom escritor sabe que um texto escrito com o coração explodindo de sentimentos corre o risco de ser um fracasso se comparado a um texto construído sob a luz da sobriedade. Em todo o caso, a razão deste blog existir é exatamente essa... Escrever textos ruins e assassinar a língua de nossos colonizadores? Também. Mas principalmente me ajudar a expurgar meus demônios para as palavras. E, nesse momento, meu demônio é o ressentimento.


























